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Anonimato na web:

Anonimato na web: é a capa invisível que dá superpoderes

Cada um tem seus princípios morais. A moral de um indivíduo é a forma como o sujeito lida com regras e valores propostos a ele. O que, é claro, varia, de acordo com a época em que vive, os locais por onde transita e, principalmente, em relação àqueles com quem se relaciona socialmente. É como dizem: o homem é produto do meio.
A moral é também uma forma de controle social, bem disseminada entre instituições de poder. Em muitas culturas, a moral sexual induz à inibição de instintos naturais. É capaz de criar no indivíduo o medo da liberdade, reprimir sua energia sexual e colocá-lo em constante disputa contra a natureza de seu corpo. Ao cercear o desejo de alguém, exerce-se poder sobre essa pessoa – as religiões e estados vêm fazendo isso ao longo da história.
Foram as religiões que definiram o valor da castidade feminina, como um princípio moral a ser cultuado. Ao mesmo tempo que esse conceito está saindo de moda, discursos, mitos, filmes, contos de fadas continuam a incutir, desde a infância – principalmente nas garotas -, o ideal de amor romântico. E tal ideal é apresentado às meninas como um resultado natural do seu “bom comportamento”.
Por outro lado, mulheres são apontadas por suas roupas e condutas, desde muito cedo, sofrendo com o slutshaming – uma forma de bullying que as faz terem vergonha de sua sexualidade. Tanto que alguns estudos científicos comprovam que a maioria das mulheres mente sobre a quantidade de parceiros que tiveram, ou mesmo sobre se masturbarem e assistirem pornografia. Fazer sexo não parece tão errado quando outros não sabem a respeito.
Grande parte ainda acredita que o comportamento dito promíscuo as impediria de serem amadas. E muitos garotos alimentam essa ideia, dividindo as mulheres entre aquelas “para pegar” ou “para namorar”. Aliás, os homens também são vítimas do próprio machismo, sentindo-se impelidos a demonstrar virilidade a todo o momento, além de se privarem (ou esconderem) de sentir qualquer tipo de prazer anal. Além disso, a homossexualidade ainda é alvo de muitos preconceitos.

A sociedade continua moralista?
Olha, eu não fazia ideia de quão reprimidas são a maioria das pessoas até começar a escrever sobre sexualidade. Cresci em ambiente liberal. Minha mãe sempre tratou a nudez com naturalidade e falava comigo sobre sexo, sobre tudo. Cerquei-me de amigos de mente aberta – pessoas com quem mais me identifiquei ao longo da vida. Desde a adolescência, frequentei ambientes onde a orientação sexual era livre e que fazer sexo como quisesse e falar sobre isso era mais do que normal. Na verdade, continuo vivendo essa realidade no meu círculo social.
Foi preciso eu me expor na internet para sentir como é violenta a repressão sexual que se vive no Brasil. Ao passar a ler a opinião alheia sobre o assunto, percebi como o moralismo ainda domina a sociedade. Todos os dias, os discursos de ódio que tenho que ler me causa sofrimento. Sinto-me agredida com a forma como tudo que se refere a sexo é coibido. Mesmo quando as agressões não são dirigidas diretamente a mim.
E a internet é determinante na iniciação sexual dos jovens, hoje em dia. Imersos nesta infinidade de informação digital, eles encontram nas redes virtuais a maioria das respostas sobre seus corpos, instintos e vontades, no momento de descoberta da própria sexualidade. A oferta de conteúdo explícito da rede mundial de computadores alimenta suas fantasias e os impulsiona a extravasar desejos diante do computador.
Porém a liberdade para explorar sua sexualidade que encontram na rede se opõe ao pudor com que são ensinados a tratar sobre o assunto em seu meio social. A repressão sexual é capaz de bloquear a atividade consciente, no entanto a sexualidade não perde sua força. Pelo contrário: pode até ser crescer na mente do indivíduo. Os mecanismos de culpa induzidos pela educação moral e religiosa a que as pessoas são submetidas os induzem a esconder seus impulsos sexuais – as mesmas volições que encontram vazão no espaço virtual.
As novas gerações estão tão acostumadas se comunicar nas redes sociais que muitas vezes sentem dificuldade de conversar pessoalmente. Ou mesmo não têm com quem falar sobre questões que os afligem. Principalmente quando o assunto é sexo – falar sobre sexo ainda é tabu, e quem faz isso abertamente é, via de regra, estigmatizado. Ao mesmo tempo, a internet é território livre onde todos têm voz. Ali, é possível encontrar a sexualidade, seja como prática ou como discurso, muitas vezes destituída de barreiras morais. Com a sensação de liberdade e a segurança de ser anônimo (um anonimato buscado de forma até obsessiva), o indivíduo encontra espaço para liberar a energia sexual nele reprimida e abrir seus dilemas pessoais para outros internautas – e, mesmo assim, muitas vezes sentem culpa pelas próprias fantasias e desejos
Enquanto anônimos, os indivíduos podem tudo na internet. Mas, apesar dessa suposta liberdade, a própria web contribui para alimentar a repressão de quem expõe sua sexualidade – seja com a censura imposta pelo Face book em um clima de denuncismo, seja diante da sensação cada vez maior de ter sua vida vigiada online, ou mesmo com os valores disseminados pelos usuários das redes contra aqueles que têm sua intimidade exposta.
As pessoas seguem cuidando da vida dos outros, como se fazia nos bairros de antigamente. Só que agora os mecanismos são mais eficientes – é possível ver, sem ser visto; atacar, sem ser reconhecido. Cada qual com sua munição: sua própria moral.

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